Presente de Natal

Véspera de natal.

Um menino esperava ansiosamente para sua hora de dormir. Queria dormir logo, queria que o dia seguinte chegasse logo. Tinha pedido para o Papai Noel um presente novo e esse seria o melhor presente que poderia ganhar.

Enquanto sua mãe o colocava na cama, a única coisa que ele pensava era no presente.

“Mãe, é verdade que o Papai Noel pode dar qualquer presente?”

Sua mãe não lhe respondeu, apenas fez outra pergunta:

“Mas o que vc pediu esse ano que está com tanta vontade de ganhar?”

“Não posso contar mãe… é segredo…” – Dizia ele baixinho.

Sua mãe sorriu. Pensava na bicicleta que tinham comprado para ele. Tinha certeza que era aquilo e que seu filho ficaria muito feliz. Falou tanto na bicicleta durante o ano, só poderia ser aquilo. Não tinha sido fácil comprá-la, mas por ele, queria fazer aquele sacrifício.

“Durma bem meu filho. Vamos dormir rapidinho que assim amanhã chega mais rápido” – Deu um beijo no menino e saiu do quarto.

No meio da noite seus pais levantaram para colocar o presente na árvore. A mãe contava para o pai do menino sobre sua conversa. Os dois riam baixinho enquanto arrumavam o presente. Eles também estavam felizes e ansiosos com o dia.

Na manhã seguinte a mãe foi acordar o menino e encontrou-o parado em frente ao espelho.

“O que vc está fazendo, filho?”

O menino não tinha percebido sua mãe entrar. Respondeu que não era nada, abaixou a cabeça e foi para a sala.

Sua mãe achava estranho. Pensava que algo tinha acontecido, o menino não parecia bem, parecia triste.

Foi para a sala atrás dele.

Os dois abriram o presente juntos. O menino sabia que ganharia uma bicicleta. Tinha visto seus pais escondê-la, tinha ouvido eles colocarem na sala. Fingiu estar surpreso e muito feliz. Fez uma festa grande com seus pais, dizia que queria andar nela agora e saiu pela rua. Seu pai o acompanhava para ensiná-lo. Sua mãe ficara mais aliviada. Ainda ficou com a imagem de seu filho olhando para o espelho na cabeça, mas pensou que deveria ser alguma coisa de criança. Quem sabe seu filho não estava querendo crescer, afinal ele era um dos mais baixos de sua turma.

O menino brincava na rua com o pai. Tentava andar na bicicleta, mas caía muito. Em um momento o menino teve um tombo forte. Ralou a perna e a mão e começou a chorar. Seu pai tentou acalmá-lo, mas não conseguia. Resolveu levá-lo para dentro de casa.

Sua mãe também apareceu para acalmá-lo, mas o menino não parava de chorar. Fizeram um curativo e colocaram-no um pouco na cama para ver se sentia melhor. Sua mãe fazia um cafuné e dizia que isso acontecia quando as pessoas estavam aprendendo a andar de bicicleta, mas que ele não podia desistir, tinha que ser forte, já estava grandinho, não podia chorar daquele jeito.

O menino fingia escutá-la, fingia se acalmar com aquilo. Mas o que o acalmava era apenas o colo e o carinho de sua mãe. Não chorava pela sua perna, pela sua mão. O tombo nem doera tanto, lembrava de que quando tinha quebrado o braço, a dor tinha sido muito pior. Chorava por outro motivo. Chorava, pois pensava no seu presente.

Não sabia porque tinha pedido aquilo. Nem acreditava em Papai Noel, sabia que ele não existia. Já era esperto o suficiente para entender como o natal funcionava. Mas seu desejo não o deixava em paz. Suas esperanças ainda o faziam sonhar com seu presente. E nada parecia ter mudado.

Seus pais deixaram-no descansar um pouco na cama. O menino, sozinho no quarto, permanecia deitado de lado, com o corpo voltado para a parede. Agarrava o travesseiro, apertava-o fortemente com as mãos e aproximava-o do peito. Seu coração doía, parecia queimar, parecia derreter. Fechava a abria o olhos lentamente. Seu olhar fixava-se em suas sensações, olhava para dentro, olhava para si. E entre olhadas e piscadas, algumas lágrimas escapavam de seu coração. Ele era apertado, esmagado, contraído. Ouvia-o bater, tentava calá-lo. Dizia para si – Fica quieto, eu não quero mais. Mas ele continuava a pulsar desejos.

E num deslize, uma lembrança escapou. Lembrava de alguns dias atrás. Sentado ao lado de seu amigo. Seu ombro encostava no dele, parecia vivo com o toque. Lembrava do sorriso dele, sem um dente, como o seu. Lembrava de seus olhos, castanhos e amorosos, com longos cílios. Lembrou de seu amigo abaixar e inclinar sua cabeça, encostando em seu ombro e parando ali. Lembrou do tempo parar, de seu coração pular. Permaneceu parado por não sabe quanto tempo. Não conseguia mexer. Sentia apenas sua respiração ficar mais ofegante e um peso em seu ombro. Um peso que no momento foi leve, macio, que atravessou seu ombro e percorreu seu corpo. Calentou-o, aqueceu-o, sentiu-se diferente, não lembrava de uma sensação tão boa.

No entanto, com o passar dos dias, seu peso aumentou. Tornou-se áspero, difícil de carregar. Pinicava-o, tornou-se incômodo. Sentia que aquele peso poderia esmagá-lo a qualquer momento. Não, não podia. Não podia sentir-se bem.

Queria que aquele peso passasse, queria que ele nunca tivesse acontecido.

Queria mudar para sempre.

O espelho parecia delatá-lo e rir de sua cara.

Ainda era o mesmo… e ainda carregava aquele peso…

Stop Motion

Me segurei para não postar esse vídeo antes aqui. Sim, eu queria ter postado isso antes, mas resolvi esperar, pq queria fazer a “estreia” no Purpurina e consegui. Fico feliz de ter conseguido segurar a ansiedade, valeu a ansiedade. O pessoal adorou e mto ficaram emocionados.

Bom, a história é a seguinte.

Td começou qdo eu ouvi a música Marchin On do One Republic. Achei ela linda, depois que ouvi não conseguia mais parar de ouví-la repetidamente sem parar por um bom tempo.

Sua letra me lembrava da minha vida, da minha trajetória enquanto um jovem gay. Algumas partes da música me faziam refletir sobre isso e eu criava mini histórias na minha cabeça com a música. Ela me ajudou em certos momentos. Achava sua msg bonita. Ela me fazia seguir em frente e não desistir.

Mostrei ela para mtas pessoas, inclusive para o meu namorado, se tornando quase um tema para nós. Mas para mim era mais do que isso. Achava que ela podia ajudar tantos como eu. E continuava a pensar em histórias.

Um dia, pensei que poderia realmente dar vida a uma história. Quem sabe assim eu não conseguiria replicá-la, distribuí-la para quem quisesse ouví-la e, no caso, vê-la.

Foram semanas e meses pensando em como viabilizá-la. Em alguns momentos até desisti. Em outros, achei que faria o vídeo num futuro distante. Mas aquilo pulsava dentro de mim e precisava ser exposto, mostrado, compartilhado. Parecia uma ideia tão boa.

Até que um dia… A edição do Purpurina sobre o dia das mães seria a próxima. Nessa edição, os purpianos fazem apresentações artísticas e levam os familiares que quiserem no Projeto. Pensei comigo: “seria legal apresentar aquele vídeo que eu queria fazer nessa edição”. A partir daí, outras crises. Mas no final estava decidido, queria fazer o vídeo. Tive até um gde problema no meio do caminho que tinha me feito desistir da ideia, não estava com cabeça para aquilo. Mas a força desse vídeo estava tão forte. Ele estava tão vivo dentro de mim que as ideias foram chegando.

Comprei materiais. Fiz alguns testes. Mudei várias vezes de abordagem e no final a minha cultura acabou se manifestando na criação.

Foi difícil, foi trabalhoso, mas definitivamente valeu a pena. Adorei o resultado, claro que vejo problemas, e vejo bastante problemas, mas acho que conseguir dar conta do recado e fico feliz com isso.

Então, aqui vai o resultado…